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Eduardo Habkost raisama.net

diary / Por que cooperamos? (ou: Cooperação é inevitável)

Qui 18 Ago 2005
17h38min
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Por que cooperamos? (ou: Cooperação é inevitável)

Ontem, participei de mais uma discussão com o Leonardo, sobre hipóteses que formam minha visão de mundo. Estranhamente, apesar de termos uma visão de mundo bastante diferentes, conseguimos nos comunicar civilizadamente de modo que as discussões são às vezes bastante produtivas, na minha opinião.

Então, vamos ao tema da discussão: enquanto conversávamos, chegamos aos assuntos: competição, busca por lucro, visão de curto prazo, cooperação. Enquanto falava, consegui elaborar certas hipóteses que já tinha em minha cabeça, mas ainda não tinha detalhado o suficiente. A grande questão é: por que cooperamos?

Cooperar, na discussão, inicialmente, dizia respeito ao oposto da competição entre empresas e busca por lucro. Mais precisamente, o modelo de cooperação inicial era o das universidades: pela observação notamos que universidades sabem cooperar melhor entre si do que as empresas. Podemos encontrar empresas e universidades que possuem um objetivo comum, mas com uma diferença: empresas geralmente cooperam “internamente” para conseguir competir melhor, porém universidades geralmente “sabem” cooperar entre si. Naturalmente não é uma regra absoluta, o objetivo aqui não é dizer que universidades são melhores que empresas. A questão é: existem “entidades” que “sabem” cooperar entre si melhor do que outras.

Definições

Essa seção se ocupa de definir o que é cooperação. Se você acha que o parágrafo anterior foi suficiente para compreender o conceito, não se preocupe em ler tão atentamente a seção seguinte.

Vamos tentar definir cooperação. Definamos cooperação entre as entidades pertencentes a um conjunto, quando as entidades desse conjunto são capazes de prever o comportamento mais eficiente para o conjunto atingir um determinado objetivo. A questão de “qual objetivo é esse” é a mais sensível da teoria: não é bem definido, e depende da visão de mundo de cada um. Acho que é fácil perceber quando um conjunto de indivíduos está “cooperando” com o grupo, e quando não está. A questão é que não consigo definir tal conceito formalmente[1].

Vou continuar considerando que o leitor aceita que existe um conceito de cooperação aceitável e que seja compreendido pela maioria. Se você acha a definição informal do conceito insuficiente, eu sinto muito. Convido o leitor a discutir comigo para tentarmos achar uma definição adequada.

A teoria

Agora, vamos à teoria:

Podemos observar vários exemplos de entidades que sabem “cooperar” em certo nível: os seres humanos são um exemplo de grupo de células em que cooperam entre si. Cidades organizadas são um exemplo de como seres humanos são capazes de cooperar, ao menos um pouco. Países são um exemplo de como as cidades são capazes de cooperar entre si. As próprias células são exemplos de que os organismos simples (que hoje são os vários componentes da célula) são capazes de cooperar entre si e formar um organismo mais complexo.

Note que a medida do “sucesso” da cooperação não é o número de indivíduos, como foi a maior ponto de discórdia no diálogo, mas sim a capacidade de formar organismos cada vez maiores e mais complexo que “sabem cooperar”.

A minha teoria é: a “capacidade máxima de cooperação” entre os organismos sempre vai aumentar, e levar à formação de organizações cada vez mais complexas, desde que tenhamos uma população grande o suficiente.

Mas um argumento contra isso que temos é: “os indivíduos que cooperam são frágeis e temporários. Os organismos mais simples são os que tem mais sucesso”. Porém, como já destaquei, a medida de “sucesso” não é a quantidade de indivíduos, mas a complexidade dos indivíduos que a população foi capaz de gerar até o momento. Quanto a “fragilidade”, vou elaborar mais a seguir.

Sim, as organizações “cooperativas” são mais frágeis: se elas não forem grandes ou numerosas o suficiente, elas podem ser destruídas pelas organizações mais simples, porém mais eficientes ao se multiplicar. Como exemplo disso, seres humanos são sempre ameaçados por possíveis doenças que sejam capazes de exterminar toda a espécie. As organizações das cidades são ameaçadas por um possível aumento na criminalidade até que vamos para um estado mais “caótico” e menos “cooperativo” novamente. A organização dos países tem a ameaça de guerras generalizadas que podem: destruir a organização que temos hoje e voltarmos para um estado de “idade média”; pode ameaçar a espécie humana; e em um caso extremo, pode destruir mesmo os organismos menos “frágeis” como vegetais e bactérias.

Durante a discussão, notei que minha teoria até faz sentido, mas tem uma premissa importante que eu não havia notado até ela ser “testada” através de diálogo e discussão: para contornar a “fragilidade”, precisamos de uma população grande o suficiente. A explicação é simples: isso possibilitará que vários grupos — cooperativos ou não — se formem. E os grupos que conseguirem cooperar e forem grandes ou numerosos o suficiente, vão conseguir sobreviver e manter o “nível de cooperação máximo” onde está.

É devido a população grande o suficiente que os seres humanos povoam a Terra hoje: se as células tivessem formado um indivíduo apenas, as células mais simples conseguiriam destruir o indivíduo organizado. Se a população da Terra formasse apenas uma cidade, ela não conseguiria sobreviver ao ataque dos “não-civilizados”, e estaríamos no estado de “não-civilização” até hoje. Porém muitos e muitos organismos multicelulares como os animais e seres humanos se formaram, até que algum conseguiu atingir um nível de cooperação suficiente para que conseguisse se reproduzir e sobreviver em meio aos organismos unicelulares. Muitos “protótipos de cidades” se formaram e foram destruídos, até que uma cidade que conseguisse sobreviver em meio à “não-civilização” tempo o suficiente para que o “meme da formação de cidades”[2] pudesse ser multiplicado.

E por isso hoje as células do meu corpo não precisam competir entre si. E por isso eu não preciso matar meu vizinho em busca de comida. Conseguimos atingir um estado em que conseguimos cooperar e não precisamos competir. Sim, este estado ainda é frágil. Mas a questão principal, detalhada a seguir, é: tudo o que precisamos é de uma população grande o suficiente.

Generalizando a teoria ainda mais

Como exposto anteriormente, tudo que precisamos é de uma população grande o suficiente para contornar a fragilidade das organizações mais complexas. O câncer pode surgir dentro do meu corpo e vai ter mais sucesso que as células cooperativas que tenho. Porém há bilhões de seres humanos, que garantem que as células cooperativas continuem se reproduzindo. A criminalidade em uma cidade pode crescer até que fique impossível que a “civilização” continue dentro dela, mas há centenas de outras cidades que garantem que o meme “formar cidades para vivermos melhor” continue sobrevivendo.

Voltamos ao assunto inicial da discussão: eu acho que nós estamos em um estágio em que os organismos chamados “seres humanos” sabem cooperar entre si razoavelmente bem, os organismos maiores, as “cidades” também, mas não tão bem como os seres humanos entre si. E outros organismos, como a classe que inclui tanto as empresas quanto universidades, estão no estágio que estão aprendendo a cooperar, através da competição. Acho que em um estágio mais “avançado”, as universidades[3], por saberem cooperar entre si, vão conseguir sobreviver mesmo em meio ao ambiente de competição que existe entre as empresas, podendo até mesmo ultrapassar a quantidade de empresas numéricamente.

Porém, agora precisamos generalizar a idéia da “população grande o suficiente”: isso pode não acontecer no nosso planeta, e vamos continuar em uma sociedade “não cooperativa”, podendo ficar nesse estado indefinidamente, ou destruir o que conhecemos por “civilização”.

Mas o meu modelo de mundo é otimista e eu espero que a quantidade de “civilizações” habitando planetas pela galáxia e pelo universo seja grande[4]. Considerando uma quantidade grande o suficiente de civilizações, eu espero que ao menos uma delas “aprenda a cooperar” mais do que as outras, para que consiga sobreviver e se desenvolver até conseguir povoar outros planetas e sistemas e multiplicar o “meme da cooperação” através da galáxia.

Hipóteses ainda mais improváveis[6]

Podemos generalizar a idéia ainda mais, porém exigindo ainda mais hipóteses não-comprovadas: a galáxia será povoada pelos organismos que souberam cooperar o suficiente para levar o “meme da cooperação” para a galáxia toda, e caso a nossa não seja habitada por eles, outra galáxia será. E supondo que é fisicamente possível encontrar um meio de se locomover entre as galáxias (outra suposição não comprovada), os organismos dessas galáxias conseguirão levar o “meme da cooperação” para grande parte delas.

Agora, eu realmente vou apelar nas suposições e otimismo: eu suponho que desenvolvendo complexidade suficiente, quando o nosso universo estiver “cheio” dos “hiper-cooperadores”, algum deles vai conseguir se destacar em relação aos outros até descobrir meios de habitar “outros universos”[5]. Quem sabe criar os nossos próprios.

Vale notar que uma premissa (não comprovada) das duas hipóteses acima, é de que tecnologia avançada se desenvolve com muito tempo mantendo as mesmas informações, e que as informações se mantém caso uma civilização sobreviva muito tempo sem ser destruída e — como consequência dessa premissa — a civilização que sobreviver todo esse tempo necessariamente seria a que soubesse cooperar melhor. Isso não é um fato comprovado, mas é algo em que acredito no meu “modelo de mundo”, e infelizmente é muito difícil de testar.

Talvez o que chamamos “Deus” seja um organismo “hiper-hiper-hiper-cooperador” que foi capaz de se desenvolver o suficiente para criar universos para ser habitado. 8)

Melhor eu ir dormir, eu já estou imaginando coisas demais, agora.

Os “níveis de cooperação”

Para resumir a idéia, vou enumerar os “níveis de cooperação” (ou apenas níveis de complexidade) que podemos encontrar hoje na natureza, e os níveis imaginados por mim baseado em hipóteses e premissas não comprovadas. A lista tem precisão arbitrária, e alguns níveis podem se confundir, outros podem ser detalhados facilmente em muitos “subníveis”.

  1. Átomos
  2. Moléculas auto-replicadoras
  3. Moléculas auto-replicadoras protegidas por uma “membrana”
  4. Células como conhecemos hoje: um núcleo onde estão as moléculas auto-replicadoras “originais”, e outros organismos dentro da célula
  5. Seres vivos multicelulares 4.1. Fungos 4.2. Vegetais 4.3. Animais 4.5. Seres humanos
  6. Grupos pequenos: Bandos, tribos, florestas
  7. Grupos mais complexos: cidades
  8. Estados/províncias/países pequenos: grupo de cidades que cooperam entre si; Empresas
  9. Países; Consórcios de empresas; grupos de universidades
  10. Civilizações capazes de viagens inter-estelares[7].
  11. Civilizações capazes de viagens entre galáxias
  12. Civilizações capazes de criar ou viajar para “outro universo”
  13. Civilizações capazes de criar universos[8]
  14. ???

Vendo os níveis 5 a 8, notamos uma característica importante: o desenvolvimento do “meme de cooperação” não é linear, por isso há níveis em que vários tipos de organizações estão listados no mesmo nível por serem mais ou menos semelhantes na “capacidade de cooperação”, mas a representação mais adequada para a enumeração acima seria uma árvore.


[1] Uma tentativa de definir o que é “cooperar com o grupo” poderia ser: “adotar o comportamento ótimo para maximizar o ‘total de felicidade’ dos elementos do grupo”. Mas ainda assim é difícil definir “total de felicidade” sem cair em lógica circular

[2] Neste texto, “meme” se refere a qualquer informação capaz de se reproduzir. Isso inclui os nosso genes, que se reproduzem biologicamente, e os memes que passamos para os nossos descendentes pela “tradição”. Ambos têm a mesma função para a nossa análise e serão chamados de “memes”

[3] De novo, o importante é distinguir entre “entidades que cooperam” e “entidades que não cooperam”. Os termos “universidade” e “empresa” são utilizados apenas nesse sentido. Isso não significa que toda universidade “sabe cooperar”, nem que toda empresa “não sabe cooperar”

[4] Infelizmente não temos nenhuma informação estatística sobre isso, para fazer uma análise mais profunda; a partir daqui, são só hipóteses

[5] Eu acho o termo “outros universos” bastante contraditório: “universo” não deveria significar “tudo que existe, existiu e poderá existir”?

[6] “improváveis” no sentido de “que não pode ser provado”[9]

[7] Neste ponto fica mais visível a premissa não comprovada exposta anteriormente, de que a tecnologia avançada depende de um nível alto de cooperação

[8] Nessa eu apelei :D

[9] Sim, eu sei que as nueração das notas está fora de ordem. É que algumas notas foram adicionadas depois, mesmo aparecendo antes para o leitor no texto. E eu não estou com paciência para renumerar tudo

6 comentários

Por leoboiko em Qui 18 Ago 2005 17:58:46.

Pontinhos:

1) Não tenho muita certeza que podemos fazer algo que destrua todas as bactérias. Até onde sei, existem bactérias que sobrevivem em radioatividade, em temperaturas vulcânicas, em pedaços de planeta, sem ar, sem se mover por séculos, sem receber luz… 2) Deus é uma fantasia histórica :) um tal organismo avançado hiper-hiper-cooperador criaria um universo melhorzinho (e não vem dizer que este universo é “o melhor possível” que o Voltaire já tratou disso). 3) Você omitiu minha observação sobre “recursos” :)) a existência dessas sociedades complexas depende de recursos suficientes (de fato, nosso próprios ancestrais australopithecus só puderam sobreviver em sua forma frágil porque viveram num período muito rico em comida). Porém, como você diz, ela também depende de populações grandes, e populações grandes demais ficam sem recursos (então os fracos/complexos serão explorados pelos fortes/simples na competição por recursos, e sumirão — exemplos históricos abundam). Tem um equilíbrio dinâmico aí, e uma faixa população-recursos em que a complexidade pode aumentar. 4) Limites físicos. Ainda não está provado que é fisicamente possível/viável a viagem mais rápida que a luz, muito menos a criação de universos. Se não for possível, não importa o quão evoluída uma sociedade seja, ela nunca vai chegar a isso, e ponto.

Por Eduardo Habkost em Qui 18 Ago 2005 18:07:23.

1) Por isso chamei de situação extrema 8)

2) Ele pode ser avançado e hiper-hiper-cooperador, mas isso não quer dizer que desde que se aprendeu a criar um universo, todos os universos criados serão perfeitos. Não ficou explícito, mas não considere que o conceito de “Deus” utilizado tem todas as mesmas propriedades do conceito mais clássico

3) Eu esqueci da observação sobre recursos. Eu coloquei que uma condição necessária é a população grande o suficiente, e omiti as condições necessárias para que haja uma população grande

4) “Se não for possível, não importa o quão evoluída uma sociedade seja, ela nunca vai chegar a isso, e ponto”. Por isso eu mencionei premissas não comprovadas. Talvez não tenha ficado claro que, à medida que o texto avança, a quantidade de condições necessárias mas não comprovadas aumenta

Por leoboiko em Qui 18 Ago 2005 19:16:41.

A propósito, acho que a causa de discutirmos legal é que, apesar de os ânimos esquentarem (como em qualquer discussão), nós dois tentamos basear nossas opiniões em raciocínio, não em preconceitos emocionais.

Por Ademar em Qui 25 Ago 2005 11:29:51.

Gostei do texto, tá aí uma maneira de ver o mundo com a qual eu ainda não havia tido contato, e daí minha curiosidade: Eduardo, você realmente vê o mundo como um “conjunto de coisas cooperantes”, em todos os níveis, ou isso foi um devaneio?

Por Ademar em Qui 25 Ago 2005 11:33:52.

Caramba! Acho que isso responde minha pergunta anterior:

2005-08-18 16:39:35 /me não conseguiu dormir até escrever um texto sobre a teoria da cooperação, que discutimos ontem

2005-08-18 16:40:00 levantei da cama às 3h30 da manhã, para escrevê-lo

Interessante também saber que foi uma discussão via IRC!

Por Eduardo Habkost em Qui 25 Ago 2005 11:49:28.

Bom, qual o nível de detalhe que você espera para a resposta à sua pergunta? :)

De certo modo, vejo sim o mundo como um “conjunto de coisas”. Compartilho da visão de mundo de várias pessoas de que “estamos aqui para aprender”, ou que “estamos aqui para evoluir”, mas isso é uma crença minha.

A teoria e a conversa foram resultado de uma tentativa de racionalização e verificação da possibilidade de um mundo assim, sem precisar que a pessoa “acredite” em certas premissas.

O meu modelo de mundo vai muito além, e tem muita coisa que faz parte dele que não é comprovada e que são apenas “crenças” (talvez seja melhor chamar “suposições que apesar de não ter comprovado, acredito que são verdadeiras”). Mas eu tento separar o que é algo analisado e comprovado pela experiência, que pode ser utilizado como base para uma discussão, para um raciocínio posterior, e para defender idéias, do que é apenas parte da minha visão de mundo, mas que não tenho como demonstrar ou provar a ninguém.

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